Depressão e os extremos da rotina: quando a falta e o excesso também adoecem
É possível desenvolver depressão tanto pela falta do que fazer quanto pelo excesso de demandas.
À primeira vista, essa ideia pode parecer contraditória, mas se torna mais compreensível quando observamos como a relação com a rotina, o sentido da vida e o cuidado consigo mesmo influenciam a saúde emocional.
A depressão nem sempre surge apenas a partir de eventos pontuais. Em muitos casos, ela se constrói lentamente, a partir de desequilíbrios prolongados entre fazer, sentir, descansar e se conectar.
Quando a falta de estímulos e sentido fragiliza emocionalmente
Viver sem uma rotina significativa, sem vínculos consistentes ou sem metas que façam sentido pode favorecer a instalação gradual de um sentimento de vazio. Os dias passam, mas parecem iguais. Aos poucos, surgem a apatia, o desânimo, a perda de interesse e a dúvida sobre o próprio valor.
A ausência de estímulos não é apenas falta de ocupação, mas falta de sentido. Quando a vida perde significado, a pessoa pode se sentir invisível, desconectada de si mesma e do mundo ao redor. Esse vazio emocional, quando prolongado, pode abrir espaço para sintomas depressivos.
Quando o excesso se transforma em esgotamento emocional
O extremo oposto também pode ser igualmente adoecedor. Estar sempre ocupado, sem pausas reais, tentando dar conta de tudo e de todos, pode levar a um processo silencioso de esgotamento emocional.
Nesse contexto, o excesso de tarefas pode funcionar como uma forma de afastamento das próprias emoções. A rotina cheia cria a sensação de controle, mas não impede que a sensação de vazio, desconexão ou cansaço profundo se instale. Mesmo com a agenda lotada, o sofrimento emocional pode permanecer.
O que a clínica observa sobre esses extremos
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR, sintomas como perda de prazer, fadiga constante, irritabilidade, alterações no sono e sensação de inutilidade estão entre os critérios centrais do Transtorno Depressivo Maior.
Esses sinais podem se manifestar tanto em pessoas que se encontram paralisadas pela falta de estímulos quanto naquelas que vivem em estado contínuo de sobrecarga. Isso reforça que a depressão não está necessariamente relacionada à quantidade de atividades realizadas, mas à forma como a pessoa vivencia sua rotina, seus vínculos e suas emoções.
Mais importante do que fazer, é sentir
Mais do que observar o quanto você faz — ou deixa de fazer —, é fundamental se perguntar: como você tem se sentido com a vida que está levando?
Sua rotina oferece espaço para descanso, prazer e conexão emocional?
Ou ela tem sido marcada pelo vazio, pela exaustão ou pela sensação constante de obrigação?
O sofrimento psíquico não deve ser medido pela agenda, pela produtividade ou pela ausência dela. Ele merece escuta, compreensão e cuidado.
O cuidado começa ao reconhecer o que dói
Perceber sinais persistentes de desânimo, desconexão ou cansaço emocional é um convite à atenção. Ignorar esses sinais, seja por excesso de cobrança ou por falta de estrutura, pode intensificar o sofrimento ao longo do tempo.
Reconhecer que algo não está bem — seja pelo vazio ou pelo excesso — é um passo importante no cuidado com a saúde emocional.
Quando procurar psicoterapia
Se você percebe que sua rotina tem oscilado entre a falta de sentido e o excesso de exigências, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender esses extremos com mais profundidade e cuidado.
O processo terapêutico possibilita identificar padrões, refletir sobre escolhas e construir uma relação mais saudável com o tempo, com as emoções e consigo mesmo. Cuidar da saúde emocional também é aprender a reconhecer quando algo, em excesso ou em falta, está ultrapassando seus limites.
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